ESCORPIÃO


"AQUILO QUE
FERIU CURARÁ"

Oráculo de Delfos

por Graciela Selaimen

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Meus olhos não se prendem ao óbvio e ao explícito. Passo por cima das evidências impassivelmente para buscar o que me interessa: o que há por baixo, o que há por dentro, o que está por trás. Enquanto vou caminhando, não me distraio. Uma certeza me move - só há vida no que borbulha, no que lateja, ali, naquele limite tênue entre o natural e o indizível, só ali eu me sacio. Enquanto não me sinto perto do absoluto, nada me satisfaz. Quanto mais consumo, mais desejo, e minha avidez por aquilo que move as criaturas me leva ao ponto onde chegamos todos: a degeneração, a extinção, a morte. É nela que me contemplo e me justifico. Todo o sentido da minha existência se resume neste salto - das cinzas, renasço, transmutado. E faminto, em um novo patamar.
Não sinto culpa na minha busca por poder. Minha objetividade pode beirar a fronteira do implacável, mas não me abalo. Venho para mexer naquilo que aos outros apavora e excita - o dinheiro, o sexo e a morte. A sobrevivência, a transcendência, a ressurreição. Tenho a perfeita noção que a mesma energia que cria, aniquila. É ela que me mobiliza.

Parece tenebroso este movimento para nós, que somos criados acreditando que belo é o que permanece, seguro é o que pode ser retido e mantido. Lutamos por ser felizes na vida em linha reta. A felicidade deve ser eterna, a salvação vem da luz, e confiável é o que pode ser explicado.

O escorpião nos resgata desta artificialidade quando, em algum momento e em alguma parte de nossa vida, somos levados à espiral  nascimento / crescimento / maturidade / degeneração / morte / nascimento...

Assusta, sim. Mas só através desse movimento vislumbramos o milagre da criação.

Não é à toa que o escorpião rege os órgãos sexuais. Através deles, somos eternos seja procriando, seja nos abandonando para uma outra dimensão da existência na pequena morte que pode ser diária o êxtase sexual, o orgasmo. Parece irônico que nossos impulsos mais instintivos de preservação sejam alinhados com a imagem da morte. É assim que funciona, e o escorpião sabe disso. Seu veneno mortal também pode ser antídoto e cura.

Em algum ponto de nosso mapa estamos experimentando a imortalidade de maneira mais intensa. Seja matando parcelas de nós mesmos, pedaços de nossa personalidade que já não servem à nossa evolução; seja ganhando e perdendo continuamente nossas posses e redimensionando de tempos em tempos o que podemos chamar de "nosso".

Pode ser através da comunicação, ou na troca diária com o próximo, quando com a mesma objetividade podemos destruir ou resgatar do inferno usando uma única palavra; ou ainda através de nossas origens e raízes, através das quais aprendemos que é possível sobreviver a vários plantios e queimadas. Podemos viver e morrer nos frutos de nossa criação, brincando com o poder do sexo e sua magia, ou perceber a intensidade dos ciclos em nossas relações com a saúde do corpo e com ritmos de serviço e produção. Podemos perceber a morte e o renascimento através daqueles que escolhemos como parceiros, fazendo e desfazendo laços, ou em nós mesmos, quando nos dedicamos continuamente aos mergulhos psíquicos, internos, buscando novas perspectivas. Experimentamos os fins e recomeços nas jornadas atrás de conhecimento, sabedoria e no poder que dela pode advir, ou morremos e renascemos continuamente no mundo, transformando-o e a nós mesmos através do trabalho. Transmutamos no coletivo, nas relações fraternas, nas questões abrangentes do social, ou intimamente, silenciosamente, solitariamente ali, onde confrontamos os nossos limites.

Em que ponto da sua vida você vislumbra, contínua e alternadamente a sombra e a luz, o deixar ir e o receber, ou o ser tomado, subtraído e depois restituído em uma outra instância e dimensão?

Onde você tem sido levado a morrer e renascer, ou onde você tem mergulhado voluntariamente no mistério em busca de um outro nível de existência e consciência?

Ali estou, o escorpião. Ascendendo inevitavelmente na espiral. Com prazer ou com dor? Depende de você. A lança que provoca a chaga ou o lenitivo que aplaca a dor são as minhas dádivas. Sirva-se como quiser.

 

 

Graciela Selaimen 
Astróloga
Rio de Janeiro
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