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- Meus olhos não se prendem
ao óbvio e ao explícito. Passo por cima das evidências
impassivelmente para buscar o que me interessa: o que há por baixo,
o que há por dentro, o que está por trás. Enquanto vou
caminhando, não me distraio. Uma certeza me move - só há vida no
que borbulha, no que lateja, ali, naquele limite tênue entre o
natural e o indizível, só ali eu me sacio. Enquanto não me sinto
perto do absoluto, nada me satisfaz. Quanto mais consumo, mais
desejo, e minha avidez por aquilo que move as criaturas me leva ao
ponto onde chegamos todos: a degeneração, a extinção, a morte. É
nela que me contemplo e me justifico. Todo o sentido da minha
existência se resume neste salto - das cinzas, renasço, transmutado.
E faminto, em um novo patamar.
- Não sinto culpa na minha
busca por poder. Minha objetividade pode beirar a fronteira do
implacável, mas não me abalo. Venho para mexer naquilo que aos
outros apavora e excita - o dinheiro, o sexo e a morte. A
sobrevivência, a transcendência, a ressurreição. Tenho a
perfeita noção que a mesma energia que cria, aniquila. É ela que
me mobiliza.
Parece tenebroso este movimento
para nós, que somos criados acreditando que belo é o que permanece,
seguro é o que pode ser retido e mantido. Lutamos por ser felizes na
vida em linha reta. A felicidade deve ser eterna, a salvação vem da
luz, e confiável é o que pode ser explicado.
O escorpião nos resgata desta
artificialidade quando, em algum momento e em alguma parte de nossa
vida, somos levados à espiral nascimento / crescimento / maturidade
/ degeneração / morte / nascimento...
Assusta, sim. Mas só através
desse movimento vislumbramos o milagre da criação.
Não é à toa que o escorpião
rege os órgãos sexuais. Através deles, somos eternos seja procriando,
seja nos abandonando para uma outra dimensão da existência na pequena
morte que pode ser diária o êxtase sexual, o orgasmo. Parece irônico
que nossos impulsos mais instintivos de preservação sejam alinhados
com a imagem da morte. É assim que funciona, e o escorpião sabe disso.
Seu veneno mortal também pode ser antídoto e cura.
Em algum ponto de nosso mapa
estamos experimentando a imortalidade de maneira mais intensa. Seja
matando parcelas de nós mesmos, pedaços de nossa personalidade que já
não servem à nossa evolução; seja ganhando e perdendo continuamente
nossas posses e redimensionando de tempos em tempos o que podemos chamar
de "nosso".
Pode ser através da
comunicação, ou na troca diária com o próximo, quando com a mesma
objetividade podemos destruir ou resgatar do inferno usando uma única
palavra; ou ainda através de nossas origens e raízes, através das
quais aprendemos que é possível sobreviver a vários plantios e
queimadas. Podemos viver e morrer nos frutos de nossa criação,
brincando com o poder do sexo e sua magia, ou perceber a intensidade dos
ciclos em nossas relações com a saúde do corpo e com ritmos de
serviço e produção. Podemos perceber a morte e o renascimento
através daqueles que escolhemos como parceiros, fazendo e desfazendo
laços, ou em nós mesmos, quando nos dedicamos continuamente aos
mergulhos psíquicos, internos, buscando novas perspectivas.
Experimentamos os fins e recomeços nas jornadas atrás de conhecimento,
sabedoria e no poder que dela pode advir, ou morremos e renascemos
continuamente no mundo, transformando-o e a nós mesmos através do
trabalho. Transmutamos no coletivo, nas relações fraternas, nas
questões abrangentes do social, ou intimamente, silenciosamente,
solitariamente ali, onde confrontamos os nossos limites.
Em que ponto da sua vida você
vislumbra, contínua e alternadamente a sombra e a luz, o deixar ir e o
receber, ou o ser tomado, subtraído e depois restituído em uma outra
instância e dimensão?
Onde você tem sido levado a
morrer e renascer, ou onde você tem mergulhado voluntariamente no
mistério em busca de um outro nível de existência e consciência?
Ali estou, o escorpião.
Ascendendo inevitavelmente na espiral. Com prazer ou com dor? Depende de
você. A lança que provoca a chaga ou o lenitivo que aplaca a dor são
as minhas dádivas. Sirva-se como quiser.