2
por Graciela
Selaimen
Assim que nasci, vislumbrei no horizonte três
montanhas. Desde então eu soube que uma delas teria que galgar,
inevitavelmente, até o topo. Caso contrário, não me sentiria mais
parte deste mundo. É nessa tarefa que me empenho. Seja empreendendo a
jornada da sabedoria; seja buscando a ascenção social e material;
seja escalando por poder. O topo de uma das três montanhas será meu.
No mínimo. Este caminho nunca é fácil. Por isso o Universo me dotou
de cascos duros e da capacidade de digerir tudo ainda que lentamente.
Não me incomoda a adversidade. Não que eu seja um exemplo de
destemor. Pelo contrário, a possibilidade de fracassar me apavora.
Mas minha natureza é seguir adiante e subir, silenciosa e
solitariamente. Por mais que rolem pedras e o mundo me apresente a sua
aridez, é só no próximo passo que me concentro. Ao meu objetivo me
atenho. No patamar seguinte, eu penso em descanso. E, se neste
caminho, eu pisotear florezinhas silvestres, guardo-as na memória
para que mais tarde, vitoriosa na minha empreitada, eu lamente o gesto
ou não.
Capricornianos precisam vencer na vida. Se isto
significa enriquecer, exercitar poder administrando as vidas alheias, ou
chegar a uma posição honrada e obter o reconhecimento da sociedade
sobre sua expertise e eficiência, não faz muita diferença. O que
interessa a essas pessoas é o reconhecimento de suas capacidades, de
seu talento ou de sua competência naquilo a que se dedicam. Não há
como conviver com o fracasso ou se acomodar no meio-tom da mediocridade.
Eles querem realizar e receber a recompensa do mundo por isso. Não é
aplauso o que buscam. Aliás, o mero aplauso, para eles, pode ser motivo
de um riso irônico e desdenhoso. Eles querem que o mundo admire e
admita o quanto são necessários para o funcionamento correto das
coisas. Querem ser indispensáveis. Qualquer coisa menos que isso pode
fazer um capricorniano se remoer até a morte achando-se mal
compreendido, pouco querido, rejeitado. Se o seu trabalho não for
importante, se o seu papel no mundo ainda que por trás das cortinas
não for fundamental, o capricórnio se transforma numa cabra
melancólica, rancorosa e frustrada. Ficar no meio do caminho, para ele,
é o fim.
Todo esse potencial de trabalho, toda esta
ambição, muitas vezes é sutil e bem apresentada. O capricorniano
sabe, como ninguém, esperar a sua vez, ser cordial, ser conveniente e
mesmo bem-humorado. Não é falsidade, é uma maneira de fazer as coisas
como devem ser feitas, atender às expectativas do mundo, já que
aqueles que se adequam têm mais chances. É o seu instinto de
sobrevivência que o faz assim. Mais profundamente, o capricórnio tem
pavor da rejeição. Se sentir inadequado, ridicularizado ou achar que
não está inserido num contexto social pode fazer um capricorniano se
recolher no seu mundo privado e viver à parte, protegido por uma
solidão escolhida. Não se faz chacota dessa gente. A mágoa pode durar
uma eternidade, mumificada em cicatrizes internas - as quais até as
pessoas mais íntimas do capricórnio jamais desconfiam que existam.
O tempo trabalha a favor deste povo caprino,
que pode parecer subserviente em muitas ocasiões, mas que intimamente
se diverte com sua capacidade de agir com estratégia. Conforme se
aproxima dos seus ideais, traçados na mais tenra juventude, muitas
vezes a cabra finge que relaxa e dá umas boas risadas, depois que tudo
estiver ordenado, garantido e sob controle. Seu humor é fino, seu olhar observador, seu
afeto constante, suas promessas afiançáveis.
Sua mente é poderosa, discriminadora e objetiva, e o excesso de
prudência pode impacientar a muita gente, mas tem suas compensações.
A cabra dificilmente erra o alvo e, mais dificilmente ainda,
responsabiliza a quem quer que seja quando isso acontece. Na verdade,
quando a seta foge do prumo, ela pode penalizar bastante a si mesma com
uma auto exigência e um sentimento de culpa que funcionam quase que
autônomamente.
Sendo assim, o capricórnio é dono de sua
vontade, sim. Talvez por isso, também é perfeitamente capaz de pagar
as suas contas e arcar com as consequências de suas escolhas.
Este signo trabalha incansavelmente. Só por
isso, já mereceria respeito. Mais do que isso, o capricórnio na vida
de cada um de nós é o pai da criação, o juiz que nos impõe a
disciplina para que externemos concretamente aquilo que carregamos de
bom. Sem ele, somos eternos bebês ansiando pelo conforto do que é
dado, incapazes de botar a cara na rua e olhar o mundo empertigados,
após receber aquele estímulo que só o exemplo do pai pode dar. O
capricórnio nos impulsiona a empreender a jornada em direção à nossa
obra individual e intransferível. Para a criança, o impulso do pai em
direção ao mundo pode ser doloroso e parecer cruel. Mas o bom pai não
abandona o filho à própria sorte. Ele nos provê de um par de chifres
pontiagudos, um olhar sereno e paciente mesmo sob nuvens cor de chumbo -
e uma pedra na mão. Esse é o legado do tempo à humanidade. Afinal, o
mundo tem que se sustentar em algum pilar, os sonhos têm mais graça
quando se realizam, e todo o sentido dos grandes ideais e das mais
brilhantes jornadas se perde, se o homem não puder voltar a pisar em
terra firme.
Graciela
Selaimen
|