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CAPRICÓRNIO-
"...sopraram os ventos,
e a tempestade se abateu
sobre aquela casa.
Mas ela não desabou, pois estava
edificada sobre a rocha."
(Matheus, 7-25)
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por Graciela Selaimen

Assim que nasci, vislumbrei no horizonte três montanhas. Desde então eu soube que uma delas teria que galgar, inevitavelmente, até o topo. Caso contrário, não me sentiria mais parte deste mundo. É nessa tarefa que me empenho. Seja empreendendo a jornada da sabedoria; seja buscando a ascenção social e material; seja escalando por poder. O topo de uma das três montanhas será meu. No mínimo. Este caminho nunca é fácil. Por isso o Universo me dotou de cascos duros e da capacidade de digerir tudo ainda que lentamente. Não me incomoda a adversidade. Não que eu seja um exemplo de destemor. Pelo contrário, a possibilidade de fracassar me apavora. Mas minha natureza é seguir adiante e subir, silenciosa e solitariamente. Por mais que rolem pedras e o mundo me apresente a sua aridez, é só no próximo passo que me concentro. Ao meu objetivo me atenho. No patamar seguinte, eu penso em descanso. E, se neste caminho, eu pisotear florezinhas silvestres, guardo-as na memória para que mais tarde, vitoriosa na minha empreitada, eu lamente o gesto ou não.

Capricornianos precisam vencer na vida. Se isto significa enriquecer, exercitar poder administrando as vidas alheias, ou chegar a uma posição honrada e obter o reconhecimento da sociedade sobre sua expertise e eficiência, não faz muita diferença. O que interessa a essas pessoas é o reconhecimento de suas capacidades, de seu talento ou de sua competência naquilo a que se dedicam. Não há como conviver com o fracasso ou se acomodar no meio-tom da mediocridade. Eles querem realizar e receber a recompensa do mundo por isso. Não é aplauso o que buscam. Aliás, o mero aplauso, para eles, pode ser motivo de um riso irônico e desdenhoso. Eles querem que o mundo admire e admita o quanto são necessários para o funcionamento correto das coisas. Querem ser indispensáveis. Qualquer coisa menos que isso pode fazer um capricorniano se remoer até a morte achando-se mal compreendido, pouco querido, rejeitado. Se o seu trabalho não for importante, se o seu papel no mundo ainda que por trás das cortinas não for fundamental, o capricórnio se transforma numa cabra melancólica, rancorosa e frustrada. Ficar no meio do caminho, para ele, é o fim.

Todo esse potencial de trabalho, toda esta ambição, muitas vezes é sutil e bem apresentada. O capricorniano sabe, como ninguém, esperar a sua vez, ser cordial, ser conveniente e mesmo bem-humorado. Não é falsidade, é uma maneira de fazer as coisas como devem ser feitas, atender às expectativas do mundo, já que aqueles que se adequam têm mais chances. É o seu instinto de sobrevivência que o faz assim. Mais profundamente, o capricórnio tem pavor da rejeição. Se sentir inadequado, ridicularizado ou achar que não está inserido num contexto social pode fazer um capricorniano se recolher no seu mundo privado e viver à parte, protegido por uma solidão escolhida. Não se faz chacota dessa gente. A mágoa pode durar uma eternidade, mumificada em cicatrizes internas - as quais até as pessoas mais íntimas do capricórnio jamais desconfiam que existam.

O tempo trabalha a favor deste povo caprino, que pode parecer subserviente em muitas ocasiões, mas que intimamente se diverte com sua capacidade de agir com estratégia. Conforme se aproxima dos seus ideais, traçados na mais tenra juventude, muitas vezes a cabra finge que relaxa e dá umas boas risadas, depois que tudo estiver ordenado, garantido e sob controle. Seu humor é fino, seu olhar observador, seu afeto constante, suas promessas afiançáveis. Sua mente é poderosa, discriminadora e objetiva, e o excesso de prudência pode impacientar a muita gente, mas tem suas compensações. A cabra dificilmente erra o alvo e, mais dificilmente ainda, responsabiliza a quem quer que seja quando isso acontece. Na verdade, quando a seta foge do prumo, ela pode penalizar bastante a si mesma com uma auto exigência e um sentimento de culpa que funcionam quase que autônomamente.

Sendo assim, o capricórnio é dono de sua vontade, sim. Talvez por isso, também é perfeitamente capaz de pagar as suas contas e arcar com as consequências de suas escolhas.

Este signo trabalha incansavelmente. Só por isso, já mereceria respeito. Mais do que isso, o capricórnio na vida de cada um de nós é o pai da criação, o juiz que nos impõe a disciplina para que externemos concretamente aquilo que carregamos de bom. Sem ele, somos eternos bebês ansiando pelo conforto do que é dado, incapazes de botar a cara na rua e olhar o mundo empertigados, após receber aquele estímulo que só o exemplo do pai pode dar. O capricórnio nos impulsiona a empreender a jornada em direção à nossa obra individual e intransferível. Para a criança, o impulso do pai em direção ao mundo pode ser doloroso e parecer cruel. Mas o bom pai não abandona o filho à própria sorte. Ele nos provê de um par de chifres pontiagudos, um olhar sereno e paciente mesmo sob nuvens cor de chumbo - e uma pedra na mão. Esse é o legado do tempo à humanidade. Afinal, o mundo tem que se sustentar em algum pilar, os sonhos têm mais graça quando se realizam, e todo o sentido dos grandes ideais e das mais brilhantes jornadas se perde, se o homem não puder voltar a pisar em terra firme.

Graciela Selaimen

 

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Graciela Selaimen 
Astróloga
Rio de Janeiro
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