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Breve Guia de História da
Astrologia no Ocidente
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Introdução
Alguns
estudiosos(i) imaginam que a
história da astrologia tenha se desenvolvido em
3 estágios ou fases, sendo a primeira resultante
das anotações dos presságios, ainda sem
zodíaco; na segunda fase introduz-se o zodíaco
com signos de 30 graus sem que haja nenhum
horóscopo individual, mas muita atenção aos
trânsitos de Júpiter pelos signos - do qual
parece derivar a prática das profecções anuais
que mais tarde vai se desenvolver na astrologia -
sem casas astrológicas. Waerden assinala este
período de 630 a 450 a C; o zodíaco é sideral
e seus "ayanamsha"(ii) muito próximos
aos de Fagan(iii).
A terceira
fase consiste da astrologia horoscópica. As
fontes antigas mencionam os "caldeus"
que faziam mapas para pessoas e, segundo até
Aristóteles, houve um "caldeu" que
previu a morte de Sócrates e que o pai de
Eurípides, o famoso dramaturgo grego, encomendou
a leitura do mapa de seu filho. Nestes mapas de
nascimento, as posições correspondem muito mais
a um zodíaco sideral que utilizava um ayanamsha
como o Fagan/Bradley do que
com um zodíaco tropical.
Origens
na Mesopotâmia
Para quem
trabalha com astrologia no ocidente, a história
segue um rumo definido, que começa na
Mesopotâmia - há registros de cerca de 15 mil
anos a C, em que as fases da Lua já eram
anotadas em pedaços de osso e estas parecem ser
as mais antigas observações astronômicas que
se conhece. A palavra Mesopotâmia é grega e
refere-se ao fato de ser uma terra entre dois
rios, o Eufrates e o Tigre ('mesos"
significa meio e 'pótamos' significa rios).
Os
registros mesopotâmicos atestam o que se chama
hoje de presságios, como origem da astrologia
ocidental. Tal como ocorreu com outras culturas,
tratava-se de examinar os céus para ver o que
poderia afetar os reinos. A maior parte destes
presságios misturavam previsões de tempo e
astronomia, mas o que diferenciou os
mesopotâmicos de outros povos do Ocidente foi
que naquela época eles começaram a gravar de
forma sistemática os fenômenos celestes e
tentar correlacioná-los com eventos terrestres.
Um exemplo do tipo de anotação de presságios
do período acádio, veja o seguinte trecho:
"Se
Vênus aparecer a Oeste no mês de Airu e
os Grandes e Pequenos Gêmeos
circundarem-na, todos os quatro, e ela
estiver escura, então o rei de Elam
cairá doente e não permanecerá
vivo".
O mais
extenso documento contendo os presságios
babilônios estão no épico chamado Enuma
Anu Enlil, condensados por
volta do segundo milênio a C.
A
civilização mesopotâmica nasceu há cerca de 4
mil anos a C - com o povo ubaida, depois vieram
os sumérios, que inventaram a escrita
cuneiforme, uma das mais antigas formas de
registro escrito, que consiste na confecção de
formas de baixo-relevo com cunhas no barro, que
depois era cozido.
O traço
histórico marcante, que, segundo estudiosos,
terá muito impacto na própria constituição da
astrologia, como também de outros conhecimentos,
é a forte instabilidade política da região,
durante milênios. Os acádios conquistaram os
sumérios (2330 a C). Em 1350 a C tem início o
Império Assírio, que mais tarde irá estender
seu controle político e cultural por toda a
região da Mesopotâmia, parte da antiga Pérsia,
Síria, Palestina e Egito (730 e 650 a C). O
segundo império babilônico (612 a C) dura até
a tomada da região pelos persas, quando também
o Egito fica unificado sob a dominação
política persa.
Com a
perspectiva sempre presente da perda do poder por
parte de lutas regionais, os reis e imperadores
mantinham um séquito de observadores do Céu,
que informavam em "memorandum" os
fenômenos que viam, como sinais de eventos que
ocorreriam aos poderosos.
Não havia
o "mapa astrológico" tal como o
conhecemos hoje em dia. Cosmologia e cosmogonia
astral entremeavam-se nos longos épicos da
criação, como as Tábuas de
Vênus do rei Amizaduga e o
Enuma Anu Enlil, cuja forma
acabada será conhecida apenas nos últimos
séculos anteriores à queda da Babilônia. Os
registros falavam de estrelas fixas também e
não há relatos sobre casas astrológicas ou
aspectos tais como os conhecemos hoje.
Os
sumérios inventaram o sistema sexagesimal, que
facilitou operações matemáticas muito
complicadas com relação à astronomia e este
seu sistema numérico foi exportado para toda a
antigüidade. Os egípcios adotaram este sistema
para fazer ainda melhor suas correlações
arquitetônicas e celestiais. Quando o Egito
ficou unificado juntamente com a Babilônia, a
troca de conhecimentos foi facilitada; durante a
dominação persa também, sendo este povo muito
devotado à astrologia, o que facilitou o
intercâmbio entre Egito e Mesopotâmia. Sabemos
que os egípcios construíam obras
arquitetônicas alinhadas às estrelas fixas, com
precisão de minutos de arco, talvez querendo a
simpatia do Céu para com suas propostas de poder
e religião, mas não pareciam ter nenhuma teoria
planetária envolvida nesta função, nem
técnicas matemáticas apropriadas.
Por todos
os séculos que se sucederam, os povos que viviam
entre o Tigre e o Eufrates continuaram
cuidadosamente a registrar suas observações,
até que após verificar a recorrência de ciclos
planetários, chegaram a calcular com grande grau
de acerto as posições dos planetas para o resto
do tempo futuro. Registros de eclipses que
começavam em 727 a C e que cobriam até o
período após as conquistas de Alexandre
mostraram-se corretos, segundo todos concordam.
Naquele período babilônico, o que se fazia era
marcar o Céu de acordo com estrelas, e não
através de marcas fixas de um zodíaco de 30
graus; os babilônios usavam estrelas individuais
para marcar a posição dos planetas.
A
dominação persa
Em
setembro de 539 a C, o rei Nabonidus encontra as
tropas do rei Ciro II, da Pérsia, perto da atual
Bagdá. O império da Babilônia encontra seu
fim. Com Ciro, a região encontra uma certa
estabilidade. O período de enorme atividade e
descoberta, dos astrólogos assírios e
babilônios, havia chegado a um limite, também.
Após centenas de anos registrando, nos
"Diários Astronômicos", os fenômenos
celestes para informação dos reis, os persas,
no contato com os astrólogos da Mesopotâmia,
introduziriam a matemática no cálculo
astronômico e astrológico.
A
astrologia e astronomia conhecem um grande
avanço, com a regularização dos calendários
como conseqüência de um entendimento maior dos
ciclos celestes. O período sinódico dos
planetas é descoberto, assim como o período
sideral. A descoberta destes dois períodos
possibilitou a formulação de períodos
planetários bem mais amplos no tempo. Os
planetas ficam estabilizados em signos zodiacais
ao invés de em constelações, como vinha se
fazendo até então. Os cálculos matemáticos se
provaram eficientes na sofisticação do sistema
astrológico. O contato com os Mazdeísmo,
religião persa, impulsiona a relação entre o
simbolismo solar e astrologia, carregando para
dentro do corpus astrológico o conceito de
monoteísmo, que contradizia frontalmente o
politeísmo assírio-babilônico.
A primeira
carta astrológica conhecida da Babilônia data
de provavelmente 29 de abril de 410 a C. O
registro indica signos zodiacais, mas sem graus.
Conta o nascimento de uma pessoa em determinada
data e elenca os signos em que a Lua e outros
planetas estavam posicionados. Apesar de
aparentemente terminar com uma predição, esta
parte da tabuleta foi perdida.
A
era alexandrina
Quando
Alexandre, o Grande conquista o Egito, todo o
período alexandrino vai destacar-se na história
da astrologia ocidental. Até a chegada de
Alexandre, o Grande, a região floresceu em
cultura e conhecimentos, acumulados de todos os
povos anteriores. A partir de Alexandre (331 a
C), toda a área fica sob dominação do império
e o grego será a língua dominante. Tanto no
Egito quanto na Mesopotâmia, dois generais
alexandrinos ficarão responsáveis pelas
dinastias subsequentes em cada uma das regiões.
Na Mesopotâmia, o general Seleucos instaura a
dinastia Seleucida e no Egito o general Ptolomeu
I começa a dinastia dos Ptolomeus.
O período
alexandrino foi rico na produção intelectual.
Todos os povos sob a regra alexandrina tiveram a
oportunidade de trocarem conhecimentos e
ampliarem sua relação cultural com outras
ciências nascentes. (Há muito que os gregos
travavam contato com os babilônios; Pitágoras,
Platão são alguns dos exemplos). O confronto
cultural entre o pensamento helênico, que queria
saber o por quê das coisas, e a tradição
intelectual assíria, que se importava mais no
como as coisas são feitas, alavancou a criação
de uma explicação filosófica e matemática
sobre o universo, o mundo natural. A filosofia
estóica de Zeno, somada à teoria dos 4
elementos de Empédocles e mais tarde à teoria
dos Humores de Hipócrates forneceu as bases da
astrologia alexandrina. Enquanto os gregos
teorizavam e procuravam melhorar a presteza
matemática no cálculo de posições
planetárias, os estudiosos caldeus calculavam
alguns eventos dos ciclos: ascensão e ocaso,
movimentos retrógrados, estacionários e oposições.
As cartas
astrológicas do período de dominação
helênico podem ter como exemplo a mais antiga,
encontrada perto da região de Uruk, datando de 4
de abril de 263 a C. Os graus de signo já eram
mencionados:
"Ano
48 da Era Seleucida, mês de Adar, a
criança nasceu. Neste dia o Sol estava
em 13.30o
Àries, a lua em 10o
Aquário, Júpiter no início de Leão,
Vênus com o Sol, Mercúrio com o Sol,
Saturno em Câncer, Marte no fim de
Câncer.."
(...)
"Ele terá falta de saúde... Seu
alimento não será suficiente para sua
fome. A riqueza que terá na juventude
não permanecerá. No seu 36o
ano terá riqueza. Seus dias serão
longos em número..."
As outras
três tabuletas abarcam de 258 a C a 235 a C -
uma é carta de concepção e a outra de
nascimento, mostrando graus zodiacais para o Sol
e todos os planetas, sendo que a Lua está sem
nenhuma datação matemática. A última das
tabuletas, também de Uruk, registra várias
predições:
"Júpiter...
em 18o
Sagitário. O lugar de Júpiter
significa: Sua vida será regular, boa;
ele se tornará rico, alcançará a
velhice, seus dias serão numerosos.
Vênus em 4o
Touro. O lugar de Vênus significa: Onde
quer que ele vá, será favorável para
ele; ele terá filhos e filhas. Mercúrio
em Gêmeos, com o Sol. O lugar de
Mercúrio significa: Este bravo será o
primeiro nas paradas, será mais
importante do que seus irmãos.."
Uma das
efemérides mais antigas data de 307 a C, da era
Seleucida - e até 42 d C elas foram produzidas.
É desta época, também, o único texto com
ilustrações de constelações e figuras
zodiacais; as sete estrelas das Plêiades, que
aparecem juntas da Lua crescente e o touro do
Touro. Há também imagens do signo de Virgem com
a estrela Spica, ao lado de Mercúrio e no
reverso uma imagem de Júpiter com a estrela de
oito pontas, ao lado da Hidra e do Leão. Com
estas ilustrações, doze divisões, uma para
cada signo do zodíaco; cada um destes signos
está dividido em um micro-zodíaco, produzindo
uma divisão de dois graus e meio ou dois dias e
meio; cada signo zodiacal traz um comentário a
respeito de sua significação astrológica.
A
astrologia horoscópica conhecida por nós vai
florescer, como já disse, na era alexandrina,
com relação a aspectos mais elaborados. Os
estudiosos que se debruçam sobre os textos
gregos estão encontrando cada vez maiores
evidencias disso. Uma das mais completas fontes
dos registros gregos de astrologia foi compilada
no final do século passado por uma equipe de
estudiosos, e chama-se "catálogo grego dos
registros astrológicos(iv).
Um sistema
astrológico completo estava pronto por volta do
século I de nossa Era, e escrito em grego, como
se pode observar nos escritos de Doroteu de
Sidon. Os registros gregos da era helenista
estão cheios de referencias a um conhecimento
ainda mais anterior da astrologia - em outras
palavras, os para nós antigos gregos já
escreviam sobre a astrologia referindo-se a ela
como sendo muito antiga e contendo citações
e/ou referencias a astrólogos ainda mais antigos
é o do astrólogo Vettius Valens, que em sua
obra se refere a velhos professores que encontrou
em suas andanças pelo Egito, o que propiciou a
este escritor que registrasse ensinamentos que
somente são encontrados nas suas próprias
obras.
Hiparco
foi o primeiro grego a refletir sobre a
precessão como sendo um fenômeno ordenado;
compilou um catálogo de 100 estrelas. (C190-120
a C) O último mapa de nascimento escrito em
caracteres cuneiformes que sobreviveu até nós
data de 68 a C e Antioco I de Comagena, um dos
últimos regentes helênicos, colocou seu mapa de
nascimento em sua tumba (62 a C).
Persas,
gregos e indianos - a questão da astrologia
indiana
O avanço
das tropas de Alexandre fez com que o grego se
espalhasse como língua cultural, como
instrumento da helenização de toda a região da
Ásia Menor, que incluía a Magna Grécia - por
muitos séculos, a língua grega desempenhou o
papel que hoje a língua inglesa ocupa em nossa
vida cultural.
Assim, os
métodos babilônicos anexados na astrologia
egípcia - bem como os próprios métodos
egípcios puderam viajar em grego até a Índia,
espalhando o conhecimento. A maior parte dos
termos técnicos encontrados na astrologia
indiana "cuja origem pode ser encontrada em
outra língua são gregos, não babilônios, nem
coptas nem mesmo em antigo egípcio" (1) e também é digno
de nota que poucas palavras técnicas da
astrologia grega tenham sua origem em qualquer
outra língua. Entre as palavras semelhantes
encontradas entre a língua grega e o sânscrito,
encontram-se as referentes a casas e aspectos, o
que talvez explique o impacto que a astrologia
helenista teve na Índia neste item. Apesar de
haver muita controvérsia a respeito do tema da
origem e desenvolvimento da astrologia hindu, as
referencias encontradas nos textos indianos às
figuras dos Yavanas -
pessoas que falavam grego, ainda que de variada
origem étnica - não deixa dúvidas sobre a
troca de conhecimentos.
A
Era Romana
Embora sob
dominação romana, a cultura ainda era
helenista. Apenas dois autores romanos
destacam-se na astrologia: Marcus Manilius, autor
de Astronômica (C10 d C), um poema didático
longo em latim; como ele não faz referências a
autores da sua época, muitos duvidam de sua
autoria, atribuindo o texto ao Renascimento e
não à Antigüidade Clássica. Além deste,
temos Julius Firmicus Maternus, que compilou
muito do conhecimento da época e escreveu no seu
Mathesis o livro 8, que trata de astrologia e
suas técnicas, em latim; seu texto ficou
conhecido por toda a Idade Média.
Data do
primeiro século depois de Cristo o mais longo
tratado astrológico de uma linhagem que nasce
diretamente no movimento filosófico dos
estóicos(2). O trabalho não
chegou até nossos dias inteiro, mas há diversas
referências dele entre diversos autores até da
Era Medieval européia. O autor é Doroteu de
Sidon e o nome do trabalho é o Pentateuco, um
longo poema astrológico em 5 livros. Doroteu é
a mais velha fonte conhecida do sistema de
triplicidade trina. Uma versão deste Pentateuco
é conhecida como Carmen Astrologicum, a Canção
da Astrologia, mas que nos chega através de uma
versão comentada em árabe, possivelmente com
acréscimos posteriores. Este trabalho mostra o
uso das triplicidades, eclipses e uma série de
pontos como ASC, graus, em torno do mapa.
Parece que
algumas fontes consideram Teucer, da Babilônia
como sendo o primeiro a delinear os decanatos
astrológicos, que também é do primeiro
século, mas não se tem certeza. Da mesma
época, no cenário romana destacam-se o
astrólogo Balbilus - que era parente do
astrólogo de Augusto e Tibério, Trasilo,
tornou-se conselheiro de Caligula, Tibério,
Cláudio, Nero e permaneceu ainda no reinado de Domiciano.
Entre 117
a 18 d C reina o imperador Adriano, que foi um
patrono da astrologia; seu mapa natal sobreviveu
até nossos dias. A Roma imperial e republicana
não nos deixa muitos registros da utilização
de astrologia, mas a confluência de xamanismo,
rituais mágicos e encantamentos de variada
origem era grande o bastante para atestar que a
astrologia viceja forte não apenas na periferia
do império mas também na população da baixa
Itália(3). A tradição
intelectual romana era bastante crítica com
relação ao Zoroastrismo, Mitraísmo e demais
práticas do Sol Invencível que adentrou a
região conforme a fronteira política do estado
Romano aumentava. Dentre os filósofos
(estóicos) destacam-se Sêneca e Cícero; todos
eles céticos com relação ao conhecimento
astrológico. Mas a tradição continuava não
apenas nas franjas do sistema, como foi aos
poucos sendo levada e transformada em contato com
as populações do norte da Europa e da Ásia
Menor.
De todo
modo, é desta época o conhecido Cláudio
Ptolomeu (100?-170 d C?), egípcio de nascimento
e provavelmente cidadão romano, embora tenha
escrito em grego. Ptolomeu foi um grande
sistematizador de uma certa corrente
representativa do conhecimento astrológico,
descrevendo no Almagesto e no Tetrabiblos tudo o
que se conhecia a respeito na área e que se
coadunava com as premissas filosóficas de
Aristóteles. Portanto, Ptolomeu não pode nem
deve ser considerado "a última
palavra" na nossa raiz filosófica. Vários
conceitos ele deixou de usar e até hoje, embora
tenha se descoberto alguma evidência, por
exemplo, de que ele jamais escreveu que havia
apenas uma maneira de se calcular a Roda da
Fortuna, ele utilizava um sistema de
triplicidades bastante diferente de outros
autores contemporâneos seus. Além do mais,
Ptolomeu não era um astrólogo praticante;
sistematizou em um conjunto inteligível tudo o
que lhe pareceu suficientemente congruente com a
tradição filosófica que professava.
Contemporâneo de Galeno (120-199? DC) - que
incorporou não apenas Hipócrates e seu
Paradigma dos Humores mas estabeleceu a conexão
entre estes e os elementos na astrologia -
Ptolomeu incorpora as categorias da medicina
aplicada ao simbolismo astrológico. O Almagesto
é talvez escrito em 127 d C mas o impacto tanto
desta obra quanto de seus trabalhos na geografia
- ele era cartógrafo e matemático, além de
astrônomo - foram de grande impacto durante 1400
anos. Ptolomeu catalogou 1022 estrelas (antes se
conheciam 850).Foi Ptolomeu quem expôs de forma
organizada a teoria geocêntrica, em que a Terra
está no centro do universo, em torno da qual
giram os outros corpos celestes; seguindo a
tradição de outros gregos anteriores, Ptolomeu
reconhece a esfericidade da terra - fato que
seria "esquecido" durante um certo
período da Idade Média no Ocidente. A teoria
geocêntrica só será abalada com a teoria
heliocêntrica, no século XIV, proposta e
defendida por Nicolau Copérnico. A idéia de que
a terra gira em torno do Sol, como os demais
corpos celestes, só foi publicada após a morte
de Copérnico, enquanto que a Igreja demorou
muito tempo para aceitar esta nova teoria(4). Cláudio Ptolomeu
escreveu um pequeno tratado sobre as estrelas
fixas, além de um tratado sobre geografia. Uma
outra tradição surge com um astrólogo
praticante, que foi, para a vertente da
astrologia estóica, o que William Lilly será
para a astrologia horária do século 17. O que
nos restou do que Vettius Valens (C150-185 d C)
compilou na sua Antologia, é uma massa de
material nascido da experimentação e da
prática. Valens utilizava o sistema de
profecções, sua filiação filosófica era
estóica, utilizava os Lotes (erroneamente
chamadas Partes Árabes), calculados
diferentemente para nascimentos diurnos ou
noturnos, o sistema de casas era semelhante ao de
Ptolomeu - casas iguais que começavam 5 graus
antes da cúspide, entre outros quesitos de sua
análise. Sua obra mostra vigorosa aplicação do
conceito de katarqué
(o estudo dos inícios) como já a raiz de um dos
ramos da astrologia que teria grande
desenvolvimento posterior: a astrologia eletiva e
horária. Só no final do século II d C teremos
Antioquio de Atenas, que compila grande coleção
de trechos e excertos de astrólogos anteriores;
uma das partes é o Thesaurus, repleto de termos
astrológicos técnicos.
Este
período da história da filosofia ocidental é
marcado pelo florescimento vigoroso do platonismo
e temos em Clemente de Alexandria (150-215 a C)
um dos maiores platonistas cristãos. A escola
neoplatônica está forte e Plotino (205-270),
considerado um dos mais importantes
representantes, escreveu as Enéadas, que tenta
dar conta de muitos dos problemas levantados
pelos astrólogos de seu tempo. Jâmblico
(C250-330 d C), um neoplatônico sírio, tentou
criar uma religião neoplatônica combinada com
as praticas mágicas de natureza tantrica. Em De
Misteriis Jamblico lida diretamente com o
problema das energias planetárias
"maléficas" e suas relações com a
alma.
Por volta
do sec II os godos apareceram na Rússia, vindo
aos poucos da Escandinávia. Bateram os germanos
que moravam no norte do Império Romano e
chegaram ao Mar Negro por volta do início do
século 3. Ali, começaram a atacar as
províncias romanas da Ásia Menor. Em pouco mais
de cem anos seriam divididos em dois grandes
grupos, visogodos e ostrogodos.
Em 313 d
C, o Cristianismo vira a religião oficial do
Estado, mas o paganismo ainda é tolerado; em 325
d C há o Concilio de Nicéia, que irá alterar
para sempre a relação entre astrólogos,
cristãos e estrutura social no ocidente. Depois
que o Imperador Constantino lançou seu édito de
tolerância para todas as religiões, em 313 d C,
o cristianismo emergiu como a religião mais
poderosa, enquanto movimento, dentro do Império
Ocidental. A maior parte dos imperadores se
tornaram cristãos na tentativa de ganhar mais
poder por aumentar sua intimidade com a sociedade
cristã organizada. Os desacordos internos na
Igreja eram entendidos como ameaças que poderiam
abalar a uniformidade e a unidade do império.
Para contornar estas divisões, os imperadores
conclamavam os encontros ecumênicos (do grego oikoumenos,
ajuntar na casa - no caso - de Deus). O Concilio
de Nicéia foi o primeiro de uma série e o ponto
de discussão foi rejeitar o arianismo, que
propunha ser Jesus Cristo um ser criado e não
igual a Deus. Obviamente, o arianismo foi uma
corrente religiosa que somava várias tradições
mágico-religiosas das regiões dominadas pelo
Império Romano e o ataque e anatematização do
arianismo abriu a porta para a negação e
perseguição de toda e qualquer forma de crença
mágico-religiosa que não fosse alinhada com a
linha programática da Igreja, ou melhor, de uma
certa linha dentro da Igreja que estava para
tomar a direção política e religiosa daquele
período histórico(5).
No final
do século 4, o Império Romano já estava
repleto de contradições internas insolúveis; a
vigilância necessária para a manutenção do
poder na periferia do sistema, há mais de 100
anos, havia se afrouxado. A cizânia se
estabelecera nas três Gálias; os hunos se
fortaleciam sob as ordens de Átila, conhecido
por não deixar pedra sobre pedra onde passava,
salgando o chão e destruindo as casas,
símbolos, segundo ele, da dominação romana. Da
periferia oriental do Império o então jovem
guerreiro Alarico liderou as hostes visigodas em
um levante onde tomam grandes áreas da porção
oriental romana, logo após a morte do imperador
Teodósio, em 395.
Data desta
época a formação do Império Bizantino. Um dos
filhos de Teodósio ficou no comando da parte
oriental do Império, enquanto o outro filho
seria o administrador da parte ocidental,
comandando a partir de Milão. Esta era uma
divisão que, apesar de temporária, tornou-se
permanente e determinou em muito as enormes
diferenças culturais e filosóficas que
inclusive são patentes na tradição
astrológica.
Vai ser na
porção oriental do império que a tradição
filosófica e religiosa, além do debate
teórico, será mais rico e produtivo. No
ocidente, sobrariam poucas condições de troca
de informações. A história teria outro rumo
nas terras que seriam tomadas pelos vândalos.
Muitas
eram as tentativas de manutenção de uma paz
precária entre a parte oriental e ocidental do
antigo império romano, tendo de se haver com
hordas hunas, no oriente, vândalas no ocidente,
entre outras, de par com as inúmeras cisões
religiosas que espoucavam de todos os lugares do
antigo império romano. Mas, em menos de cem
anos, todo o império ruiria.
Roma caiu
em uma manhã de 410, a despeito do aviso
incessante dos gansos romanos, que protegiam a
cidade sagrada das sete colinas; liderados por
Alarico, chegaram os visigodos.
Cinco anos
depois da queda de Roma, Hefaistio de Tebas
escreve a Apotelesmatica, onde reconcilia a
visão de Ptolomeu e Doroteu de Sidon;
considerado um dos mais antigos interpretes de
Ptolomeu e fonte primária dos fragmentos de
Doroteu. Agostinho (354-430) escreve contra a
astrologia individual, mas não nega a relação
entre planetas e história. Paulus Alexandrinus
(C378 d C) escreve as Matérias Introdutórias,
que sobrevive intacta quase, dando um rico
panorama da astrologia alexandrina e romana. Um
tratado anônimo de 379 prescreve a utilização
de 30 estrelas fixas na análise do mapa
astrológico natal; são idênticas as que
Ptolomeu utilizou no seu tratado chamado Fases.
Em 476 o
Império Romano do Ocidente chegava ao fim,
quando, curiosamente, reinava em Roma Romulo
Augustulo, com o mesmo nome do primeiro dos
chefes urbanos de Roma. Odoacro, um chefe
bárbaro, o depôs. Antes dele, Diocleciano havia
dividido o império em duas partes.
Período
Bizantino
A primeira
fase do Império Bizantino abarca de 324 a 640.
Este longo período afastou e separou as duas
metades do Império, tendo conseqüências
importantes para manutenção e o desenvolvimento
e de várias correntes que compõem nossa
tradição astrológica. Uma das razões de não
interrupção da prática e tradição
astrológica noa região bizantina é que ali o
grego ficou sendo a língua falada em primeiro
lugar e na parte ocidental, ficou sendo o latim.
Ora, a maior parte das obras eram escritas em
grego e aos poucos foram desaparecendo aqueles
que poderiam entender antigos escritos.
Bizâncio
era uma colônia grega pequena, fundada no
século 7 a C. Ali foi que o imperador
Constantino, em 330 d C resolveu criar, no dia 11
de maio, a cidade de Constantinopla. Dizem que
ele escolheu certas estrelas fixas para estarem
elevadas neste dia, a fim de construir uma cidade
que durasse em poder e glória muitas centenas de
anos...
O
imperador Justiniano sobe ao trono em 527.
Justiniano recuperou muitas áreas que haviam
sido tomadas pelos povos que invadiram o império
romano e o fragmentaram.
Dentre os
bizantinos que seguiram a tradição helenista
antes do advento da era islâmica, temos
Olimpiodoro, cerca de 564 d C, que deu aulas de
astrologia mesmo sob a hostilidade crescente de
Justiniano e Retório, no início do sec VII d C,
que fez uma coletânea de textos de antigos
escritos astrológicos.
Retório
tinha à sua disposição os escritos de Ptolomeu
e outros astrólogos. Elenca inclusive mais
detalhes de interpretação. Utiliza as
triplicidades e inclui elementos, 18 Lotes
diurnos e 17 noturnos, discorre sobre o thema
mundi cujo ASC seria em
Câncer e conta como certos astrólogos acham que
todos os ascendentes de todos os mapas devam
estar neste signo, embora escreva que outros
preferem que seja em Leo, o signo do Sol, mas ele
mesmo prefere no final usar o equinócio da
primavera e seu signo, Àries. Para Retório, a
Lua adquire maior importância do que para
Ptolomeu; a exaltação ou exílio dela é o mais
importante; lista as casas da mesma maneira que
Ptolomeu, mas as separa em masculinas e
femininas, assim como os planetas e signos:
"se
Mercúrio está em boa casa,
especialmente a casa de Saturno, e bem
aspectado por Júpiter, Saturno e Marte,
ele produzirá astrólogos, profetas e
sacerdotes; se Saturno está no
ascendente na casa de Mercúrio ou
Mercúrio está no ascendente, produzirá
matemáticos portentosos"(6)
Mas os
dias gloriosos da astrologia haviam terminado,
pelo menos oficialmente. Pressionada pelo estado
e pela Igreja, o caminho da sua proscrição
começara em 357, quando Constancio chamou os mathematici
- era este o nome dos
astrólogos durante centenas de anos...
- de indesejáveis,
colocando no mesmo saco os magos, os adivinhos de
sonhos, e os intérpretes de auspícios. Em 409
Honório e Teodósio mandaram os astrólogos
queimar seus livros na presença de bispos e
voltar à antiga fé católica sob pena de
exílio. Em 425 Teodósio e Valentiniano chegaram
a banir vários heréticos, inclusive os mathematici.
Obviamente, nem tudo foi assim tão fácil e nem
todos os astrólogos foram inteiramente banidos
de Bizâncio. Um certo persa chamado Estefânio,
o filósofo, gabava-se, no século 8, de haver
reintroduzido a astrologia na região. Ele
insistia que as estrelas não eram deuses e que
só expressavam o desejo de Deus, que não agiam
através de um poder que lhes era próprio, mas
através do poder de Deus e, portanto, era um
pecado que o ser humano não usasse este
conhecimento(7). E já que falamos
em persas, é importante lembrar a enorme e
decisiva importância que esta cultura terá para
a constituição da astrologia, seja no aspecto
da importância do mito solar, ligado ao
zoroastrismo, seja na maneira de criar divisões
do mês baseadas nas fases da lua, para darmos
apenas dois pequenos exemplos! Foram os persas
que ensinaram aos povos autóctones da região
perto de Harran muito da tradição espiritual e
mágico-ritualística que criariam uma poderosa
corrente esotérica que se manteria intacta
durante centenas de anos. Na cidade de Harran, no
atual Iraque, levas e levas de grupos
filosóficos e esotéricos de origem árabe,
persa, grega - neoplatônicos e platônicos -
mantiveram-se, como em um enclave de
resistência, até o tempo das Cruzadas. É desta
cidade - que agora começa novamente a ser
escavada - que saiu a forma acabada das mansões
lunares - tal como é conhecida no ocidente - e
os símbolos sabeus.
Os
árabes
Próximo
do ano de 227, a região do atual Irã foi tomada
dos partas pelos exércitos sassânidas do persa
Adachir I. Coroado, transformou o Zoroastrismo a
religião do estado; fazia parte da cultura persa
o amor à astrologia e durante o império de 4
séculos dos sassânidas, a arte floresceu
bastante. Os imperadores persas abrigavam todos
os filósofos que os cristãos baniam... Várias
artes e práticas cresceram bastante. No entanto,
tendo de brigar com hunos, romanos, bizantinos,
de acordo com cada século, foram perdendo muito
de seu território. Depois da ascensão do
Império Sassânida, quando há este
florescimento da astrologia e o Zoroastrismo é
restaurado, alguns pesquisadores consideram que a
astrologia árabe foi uma extensão da tradição
astrológica grega e que recebeu influencias da
astrologia hindu. Depois, no século 7, quando os
árabes islâmicos dominam as áreas semitas da
Mesopotâmia e da Pérsia, além do Egito, a
troca de conhecimentos astrológicos cresce como
resultado da própria dominação política
daquelas regiões, que impõe maior contato
cultural.
Após a
dominação árabe, a maior parte dos textos de
astrologia persa foram destruídos, mas os
registros que chegaram até nós indicam que os
maiores astrólogos da era árabe eram persas.
Praticantes
de uma astrologia um pouco diferente da grega ou
hindú, os árabes introduziram conceitos tais
como orbe de aspectos, e muitos outros que ainda
foram utilizados pela astrologia horária dos
séculos mais recentes, tais como frustração e
translação de luz e outros. Embora a astrologia
árabe deva muito à astrologia helenista, os
árabes introduziram modificações novas que
podem ter sua origem na astrologia persa.
Na sua
forma mais acabada, a astrologia árabe - que
seria a terceira fase da história da astrologia
- é a origem mais imediata do que hoje se
pratica no ocidente.
Período
Clássico da Idade Média
Data deste
período a maior divisão entre dois braços da
astrologia: a grega e a hindu, sendo que também
continua a linhagem da astrologia originada das
fontes persas, como uma terceira via, que mais
tarde vai desembocar na composição do corpus
astrológico árabe.
Era
Árabe
Data desta
época o grande florescimento da astrologia, com
a contribuição de sírios, gregos, egípcios,
persas e hebreus.
Teófilo
de Edessa (final do sec VIII) representa uma
ponte entre a astrologia grega e árabe; cerca de
770 d C, alguns trabalhos astronômicos da Índia
- a astrologia hindu se parece muito com a persa
no estilo e nos métodos mas os dados
astronômicos são de origem indiana, que por sua
vez tem origem em textos ainda mais antigos do
Oriente Próximo. Desta fase destacam-se Masha'
allah (770 - c 815), Messala em latim, autor de
muitas obras astrológicas. Também surge Omar de
Tibérias (815)-- possivelmente tradutor de
Doroteu do persa para o árabe, tendo um estilo
helenista nos seus escritos astrológicos. No
começo do século 9 d C, surge Abu Bakr e, entre
822 a 850, surge Kahel, um dos astrólogos de
linha claramente helenista dentro da corrente
árabe da astrologia.
Por volta
de 854 surge Abu 'Ali al - Khayyat, aluno de
Masha'allah e autor do Julgamento das
Natividades, um trabalho que mostra grande
importância das idéias de Doroteus.
Alguns
anos mais tarde, surge o astrólogo Al - Farghani
(Alfarganus em latim) e já no final do século 9
(870) surge Al-Kindi, cujos trabalhos tiveram
grande impacto na metafísica neoplatônica, mais
do que na própria astrologia - influenciou
Robert Grosseteste e John Dee; escreveu Sobre os
Raios Estelares. Em 886 surge Abu Mashar
(Albumassar em latim), representante da corrente
persa na astrologia; um dos mais importantes
autores da era árabe, era um persa que escreveu
em árabe e persa. Escreveu As Grandes
Conjunções, A Grande Introdução a Astrologia,
A abreviação da Introdução a Astrologia e De
Revolutionibus, além de Flores Astrologiae,
sobre astrologia mundial. Entre 834 e 901, vive o
astrólogo Thabit ibn Qurra - hermético,
neoplatônico; entre 820 e 912, Qusja ben Luqa,
ou Costa bem Luca; em 865 - 932, Ar-Razi, em
latim Rhazes. Em 967, aparece Al-Qabisi, em latim
Alcabitius, que empresta seu nome a um sistema de
divisão de casas, embora não tenha sido seu
autor, pois é um sistema que nasceu ainda na era
clássica. Um dos trabalhos de Alcabitius,
Introdução a Astrologia, traduzido para o
latim, foi muito popularizado. Depois de 1040 o
astrólogo Ali ibn abi r-Rijal, em latim Haly
Abenragel, foi um dos mais influentes astrólogos
da Era árabe no período latino tardio; escreveu
um grande tratado sobre astrologia.
Entre
973-1049 viveu o astrólogo Al-biruni, que
escreveu o Livro da Instrução nos Elementos da
Arte da Astrologia, um dos mais cultos e
preparados astrônomos da era árabe e conhecedor
de astrologia.
Entre
1092-1167 Avraham ben Meir Ibn Ezra, Ibn Ezra,
professor judeu que escreveu obras de grande
importância, como O Inicio da Sabedoria e o
Livro das razões, entre outros. Ibn Ezra foi
muito influente no ocidente latino.
Período
Latino-Medieval
Cobre o
período da era latina do ocidente, que derivou
quase que totalmente da astrologia árabe, sem
maiores contribuições criativas. No panorama
ocidental, uma das empreitadas mais importantes
foi a constituição de um grupo de astrólogos
tradutores das obras em persa, árabe e grego na
corte de Espanha, pelo rei Alfonso de Castela e
Leão (1226-1284), que também promoveu a
elaboração das Tábuas Alfonsinas, de tanto uso
na navegação em épocas posteriores. As Tábuas
Alfonsinas, são tábuas planetárias usadas
durante a Idade Média por astrônomos e
astrólogos. Entre os astrólogos traduzidos para
o castelhano medieval estavam as obras de Ali
Aben Ragel (1254).
As figuras
mais importantes são: Isidoro de Sevilha
(560-636), João Escoto Erígena (815-877), Pedro
Abelardo (1079-1142); Hugo de Santilla
(1119-1151) traduz obras do árabe, compilações
de métodos árabes não encontrados em outras
fontes. Em 1125, temos a figura de Adelardo de
Bath, inglês que aprendeu cultura árabe e
traduziu as obras de Abu Mashar para o inglês.
Em 1138, surge a tradução do Tetrabiblos de
Ptolomeu, do árabe para o latim, feita por
Platão de Tivoli; foi a primeira tradução.
João de Sevilha (c 1150) traduziu do árabe e
escreveu um tratado de astrologia - considerado
um dos escritores mais antigos dos trabalhos
originais em Latim durante a Idade Média.
Também há Robert Grosseteste (1175-1253), bispo
inglês envolvido nas teorias metafísicas da
linhagem de Al-Kindi a John Dee, que foi
conselheiro de reis e rainhas na corte da
Grã-Bretanha.
Alberto
Magno (1193-1280), professor de Tomás de Aquino,
responsável pela introdução do aristotelismo
na sua vertente árabe no pensamento ocidental,
era um estudioso de Alquimia e Astrologia, e
escreveu, ao que parece, uma obra intitulada
Speculum Astronomiae, uma bibliografia critica
que examinava as obras astrológicas que estavam
ou não em harmonia com o Cristianismo.
A figura
de Guido Bonatti (C1210-1290) desponta como um
dos mais importantes compiladores e práticos
latinos, escreveu o Liber Astronomiae, uma
enciclopédia que sumariza o conhecimento da
tradição árabe; Bonatti experimentou e testou
os conhecimentos que aprendeu, tendo sido
conselheiro do conde de Montefeltro, inclusive
para assuntos militares, onde exercia sua arte
astrológica no comando de operações de guerra.
Recebeu de Dante Alighieri um lugarzinho no
Inferno da sua Divina Comédia... Por volta de
1210 nasce Campanus de Novara, um dos supostos
autores da divisão de casas conhecida como
Campanus, mas sabe-se que este sistema era usado
entre os árabes.
No final
do século XIII, surge Pedro de Abano, astrólogo
e mago que escreveu uma longa obra, Conciliador,
sobre astrologia e medicina astrológica, dentro
de uma visão escolástica; traduziu ibn Ezra do
francês para o latim; no começo do sec XIV, há
registros dos trabalhos de um astrólogo chamado
Andalo di Negro. Também neste século surge o
primeiro astrólogo inglês importante, John de
Ashenden, que praticava astrologia política e
mundial, muito influenciado por Abu'Mashar, e por
volta de 1400, Antonio de Montulmo, que escreveu
sobre astrologia mágica, além de um livro
chamado Sobre o Julgamento das Natividades.
Renascimento
A corrente
arabe-latina da astrologia continua forte, mas
surgem os pensadores que acreditam que Ptolomeu
seria a única fonte verdadeira, e o conhecimento
árabe é pouco a pouco criticado. Surgem
criações e pesquisas e uma "reforma"
da astrologia que segue a linha das obras de
Kepler. Os trabalhos de Morin de Villefranche
(Morinus) são aristotélicos, e inovam em certos
aspectos da prática e da análise.
Laurentius
Bonincontrius (1410-1502) escreve o Tratado sobre
as Eleições; Marcilio Ficino (1433-1499) traduz
todas as obras do Corpus Hermeticum, muitas obras
de Plotino e Platão, para o latim e conclui uma
das obras mais importantes para o panorama
cultural renascentista: o Liber Vitae, o Livro da
Vida, em que recupera a tradição
mágico-ritualística há muito esquecida, e
propõe as mudanças de hábito de acordo com
cada temperamento. Regiomontanus (1436-1473)
escreve sobre o Almagesto de Ptolomeu e ajuda o
florescimento da astronomia entre os povos
germânicos - apesar de ser atribuída a ele o
sistema de casas que leva seu nome, este sistema
era conhecido antigamente pelos árabes, sendo
que ele próprio chamava este sistema de
"racional". Lucas Gauricus (1475-1558),
astrólogo que trabalhou para setores da Igreja,
escreveu muitos livros. Nicolau Copérnico
(1473-1543) cria um sistema de astronomia
heliocêntrica; escreve De Revolutionibus.
Johannes Schoener (1477-1547) foi um astrólogo e
astrônomo muito importante que disseminou as
obras de Regiomontanus e compilou efemérides
anuais; escreveu Opusculum Astrologicum e Três
Livros sobre o Julgamento das Natividades.
Em 1492 a
América é descoberta.
No final
deste século, Melanchton, amigo de Lutero e
grande patrono da astrologia, faz a primeira
tradução do Tetrabiblos do grego original e era
amigo de Schoener; seu pensamento estava um pouco
à esquerda de outros luteranos e por isso foi
considerado herético; influenciou o pensamento
de intelectuais como Jacob Boheme.
No começo
do século XVI, Girolammo Cardano, matemático,
astrólogo, mago, escreve algumas obras
importantes. Em 1503 nasce Nostradamus, que ficou
famoso pelas suas centurias. Junctinus
(1523-1590) foi outro astrólogo que escreveu
obra enciclopédica chamada Speculum; da mesma
época são os trabalhos de John Dee, astrólogo
e alquimista, que circulava nas rodas poderosas
da Inglaterra. Outros astrólogos foram: Johannes
Garcaeus (1530-1575), que escreveu uma
compilação de mapas de nascimento; Claude
Dariot (1530-1594), que influenciou outros
astrólogos europeus, como William Lilly, e
escreveu algumas obras. Durante aquele século,
Tycho Brahe fez a compilação do mais completo
catálogo de estrelas, além de outros registros
planetários que foram a base das observações
de Kepler.
Galileu
Galilei vive entre 1564-1642. Um seu
contemporâneo foi Morin de Villefranche,
astrólogo que escreveu 28 volumes entre os quais
a Astrologia Gallica, tentou reformar a
astrologia; era conselheiro do ministro Colbert,
da corte francesa.
O
Declínio
O começo
do declínio da astrologia na Europa é
antecedido por um grande florescimento da
astrologia na Inglaterra, com as figuras de W
Lilly (1602-1681), que desenvolveu a astrologia
horária e se apoiava nas técnicas medievais,
tornou-se a fonte da revitalização
contemporânea da astrologia na Inglaterra. Outro
astrólogo importante foi Plácido de Tito
(1603-1668), que alterou algumas formulas dos
sistemas de Maginus e dos árabes e criou o que
conhecemos por sistema de casas Placidus; tentou
criar uma astrologia cientifica baseada em
Ptolomeu e Aristóteles, mas a revolução da
idéias já não permitiria espaço para a
astrologia. Nicholas Culpeper (1616-1654),
médico inglês e astrólogo, escreve muitas
obras que disseminam conhecimentos astrológicos.
Outros nomes da astrologia na Inglaterra são
Gadbury (inimigo de Lilly), Coley, Partridge.
O abalo da
revolução copernicana nos setores científicos
europeus detonaria o que muitos autores chamam de
"a segunda morte da astrologia". Após
a profusão de almanaques publicados na
Inglaterra, França e Itália, em que a
popularização da astrologia de pouca reflexão
se espalhou, os poucos teóricos e estudiosos
realmente sérios já não conseguiam espaço
político junto às academias científicas. A
idade do racionalismo, com o seu universo
dessacralizado, estava para se tornar hegemônica
na produção cultural do ocidente.
Quando, ao
final do ano letivo de 1770, o último curso
acadêmico de astrologia é fechado na
Universidade de Salamanca, a intelligentsia
européia já não tinha mais porque reclamar;
algumas dezenas de anos antes, a astrologia havia
sido banida da formação regular da Sorbonne, na
França.
Durante o
século 18 e 19, a idéia da previsibilidade dos
ciclos históricos, deslocada da tradição até
então relacionada à arte astrológica,
desloca-se para as ciências e disciplinas
"novas", como a sociologia - que nasce
como um subproduto para melhor dominar os povos
coloniais - baseada no positivismo de Augusto
Comte e seus critérios de anomia e ordem social.
Na análise mais profunda, são os mesmos temas
milenaristas de controle do ciclo do tempo e da
relação entre grupo social e ciclos de
perpetuação do controle político do estado que
vem desde o tempo da Mesopotâmia e que podem ser
encontrados até mesmo na produção teórica
marxista.(8)
Durante
mais de um século, o conhecimento astrológico
ficou reduzido a pequeno grupo de pessoas na
Europa. Somente em meados do século XIX é que
se começa a registrar maior movimentação na
área. A astrologia européia, assim como sua
vertente norte-americana, só se recuperaria em
todo o seu vigor no "boom" astrológico
da segunda metade do século 20, salvo as raras
exceções nas décadas anteriores, que ilustram
quadros infelizes da relação entre astrólogos
e nazistas - ou a sua contraparte britânica,
cujo serviço secreto chegou a chamar astrólogos
para tentar descobrir quais seriam as próximas
manobras de Hitler.
A corrente
de transmissão do conhecimento astrológico só
seria plenamente refeita nos anos 90, quando um
movimento informal de alcance internacional e
liderado por astrólogos ingleses,
norte-americanos, espanhóis e russos se
dedicaria à recuperação das fontes primárias
da arte astrológica, não para brigar pela
"verdade" astrológica - que inexiste -
mas pelo direito ao conhecimento do passado, para
melhor produção no presente.
A América
Aqui o
genocídio cultural já havia sido perpetrado por
ocasião da invasão das terras pelos portugueses
e espanhóis. Ingleses no Norte da América
destruíram povos e tradições espirituais, e o
processo de retomada e descoberta, assim como de
recuperação deste conhecimento - de astronomia
física e cultural - ainda que esteja sendo
feito, pode estar comprometido se não houver a
necessária troca de informações entre vários
conhecimentos do céu.
NA
América Espanhola e Portuguesa o quadro é
igual, mas as conseqüências são mais
trágicas. No genocídio do povo maia perdeu-se
quase que totalmente a prática de utilização
da astrologia deste povo, conhecido depois pela
sofisticada matemática e precisão astronômica
a que chegaram. Astecas, toltecas, quíchuas,
povos nativos do Peru, cuja tradição xamânica
e mágico-ritualistica muitas vezes remete a
estações do ano e períodos do dia, também
quase que se transformaram em motivo de teses de
doutoramento esparsas ou suspeitos movimentos
milenaristas, com raras e honrosas exceções.
Pouca
gente conhece o que existe, o pouco que sobrou do
genocídio - e, quem conhece, não tem olhos nem
interesse pelos estudos da culturalização do
Céu ou do simbolismo das estações. Também,
pouca gente sabe que durante a Inquisição no
Brasil alguns brasileiros e portugueses foram
presos ou torturados por denúncias de prática
de feitiçaria e ou astrologia, também chamada
de outros epítetos, embora a história oficial
fale de uma Inquisição branda na colônia
portuguesa do Brasil e uma, muito mais feroz, nas
colônias espanholas nossas vizinhas. Para uma
história da astrologia no Brasil moderno,
consultar a obra de Antonio Carlos
Harres.
Pouca
gente sabe também que os Tupinambá do interior
da Bahia, no Brasil, produziram até marcos
geográficos semelhantes aos de Stonehenge na
Inglaterra - mas a diferença de valor cultural
faz com que esta descoberta, que motivou
exposição no Rio de Janeiro em 1997, não
consiga nem ao menos romper as fronteiras
lingüisticas. Afora o trabalho paciente e
difícil de pessoas como Kaká Werá Jacupé,
guarani criado por txucarramães, poucos se
lembram que os povos da floresta brasileira
tinham sim, antes do genocídio, um céu cheio de
símbolos e uma vida com significado e
propósito, que é, afinal de contas, tudo o que
um astrólogo quer saber ver nos mapas do céu de
alguém ou de um país...
©
Bárbara Abramo, primavera de 1998
_______________
(1) Hand, R
op. cit
(2)
Zeno, cerca de 300
a C, ensinava em Atenas perto do Stoa
Poikile (coluna pintada) da
ágora (praça), daí o nome Stoikos, que
originou estóicos. Zeno pregava que o universo
era racional e governado pelo destino; o ser
humano deviam encontrar seu lugar na sociedade,
ajudando a melhora-la e cumprindo suas
obrigações, e aprendendo que a melhor maneira
de se haver com o destino era não fugir dele,
mantendo a cabeça forte e tranqüila. O
estoicismo tem 3 fases, a ultima delas abarca o
período em questão. Mesmo Sêneca sendo
estóico, não aceitava a astrologia, embora no
corpus doutrinário da filosofia houvesse lugar
para uma cosmologia complexa que abarcava a
teoria política e ética, além da física. Até
em Descartes, muitas centenas de anos depois,
vamos encontrar uma forte tendência estóica.
Este foi o movimento mais forte de todo o
Império Romano.
(3)
Para a discussão do tema, v. Betz, H D - The
Greek Magical Papyri - UCP, 1992.
(4) V. Compton's Interactive
Encyclopedia, 1994, 1995
Compton's NewMedia, Inc.
(5)
Arius (250-336) -
foi um sacerdote cristão de Alexandria.
(6)
Tester, Jim - A History of Western Astrology -
UK, Boydell Press, 1996 - pag 95
(7)
Tester, Jim -
op.cit - pag 95
(8)
Para a discussão
do tema verificar Campion, N - The Great Year -
UK, Penguin Arakana, 1994.
_____________
i Waerden
Science Awakening Vol II, Oxford P,
citado por Hand, R :"The History of
Astrology -
another view "
ii
Termo sânscrito:
"grau anual", indica a diferença em
arco entre os pontos de início dos zodíacos
tropical e sideral.
iii
Hand, R- op.
cit
iv Em
1898, Franz Cumont conduziu explorações
arqueológicas na Ásia Menor e Síria; o
resultado está em Studia Pontica
(1906) e em outra obra, de
191. Em colaboração com outros, Cummont
produziu o Catalogus Codicum Astrologorum
Graecorum (28 volumes), com descrições e
fragmentos de códices gregos
|